domingo, 21 de outubro de 2007
Se correr, o bicho pega
Aconteceu. Após dois anos e 18 cortes, o BC interrompeu a queda do juro. Preocupado com o ritmo forte da economia e seu efeito sob os preços, o Copom decidiu, de forma unânime, manter a taxa em 11,25% ao ano. Seguindo o ritual de sempre, entidades da indústria e do comércio criticaram a manutenção dos juros. Abram Szajman, da Fecomércio SP, disse que os investimentos não virão enquanto a taxa não baixar para um dígito. Paulo Skaf, da Fiesp, afirmou que o Copom não entende a realidade. O economista do Iedi, Júlio Sergio Gomes de Almeida, ex-governo, disse que o BC “deu sinalização errada”.Chiadeira à parte, o mercado deve sofrer ajustes com a decisão. Como boa parte dos analistas esperava um corte de 0,25 ponto percentual, as maiores alterações devem ocorrer nas taxas futuras de juro. Vai ser difícil acertar a mão, já que, ao usar a palavra “pausa” em seu comunicado ao mercado, o BC teria indicado intenção de voltar a reduzir os juros futuros. Ou, nas palavras de Alexandre Povoa, da Modal Asset Management, reconhecido que o juro real de equilíbrio pode ser mais baixo.Outro efeito será sobre a taxa de câmbio. Como o Fed cortou os juros americanos para debelar a crise de agosto e, agora, o nosso Banco Central decidiu manter a Selic estável, a diferença entre as taxas externa e interna voltou a ficar apetitosa para o investidor internacional – o que significa que a enxurrada de dólares no mercado brasileiro vai se intensificar e, conseqüentemente, o preço da moeda americana tende a cair ainda mais.De cara, a Fiesp voltou a cobrar do governo medidas para conter a desvalorização do dólar e sua contrapartida óbvia, a valorização do real, que deixa as exportações brasileiras mais caras. Ontem mesmo, o BC teve de elevar suas compras de moeda no mercado para manter o dólar acima de R$ 1,80. Só na primeira quinzena de outubro, US$ 1,3 bilhão entrou no País.E o crescimento, como fica? Prejudicado. Antes mesmo de conhecer a decisão do BC, o FMI reduziu de 4,2% para 4% a estimativa de crescimento do País em 2008, como decorrência da crise do crédito nos EUA. Pelas contas do fundo, ela vai derrubar a expansão do PIB global de 5,2% para 4,8% no ano que vem. Pior: o FMI alerta para a ameaça de reaceleração da inflação nos países emergentes, em especial os da América Latina. O que significa que a margem de manobra de bancos centrais como o brasileiro é mínima. Se correr, o bicho inflacionário pega; se ficar, o bicho do crescimento anêmico come.
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